MOTOMO O FLAGELO DE DEUS PARTE 1

“MOTOMO: O FLAGELO DE DEUS” PARTE 1

PANORAMA CULTURAL(?)DE 1990.

Para maior entendimento do impacto absurdamente violento da figura do
“Motomo o Flagelo de Deus”.

Começo da era Collor. A Ministra Zélia Cardoso de Melo, criou o “Plano Collor” para tentar diminuir a inflação de 65% ao mês. “Cinqüenta Cruzados Novos”. Era a frase daquele período. Qualquer pessoa que fosse ao banco, só poderia retirar esse valor. Pessoas que me cumprimentavam na rua “Ô Marquinhos, tudo bem? Dá um abraço pro papai e pra mamãe por mim tá!”, sofreram derrames, ataques cardíacos, ficarem loucas ou se mataram. Para uma melhor compreensão de como isso afetou a vida das pessoas, assistam “Terra Estrangeira” do Walter Salles Junior, ou troque uma idéia com seus pais…

Paralelo a isso, o panorama “cultural(???)” do jovem oriundo da classe média paulistana residente na Vila Prudente:

Tudo era colorido. Cores cítricas e néon. Havia até uma caranga da marca Miura, que tinha essa porcaria de néon no pára–choque. Falando em caranga, o sonho de consumo do “jovem paulistano de classe média” nessa época poderiam ser traduzidos em: Opalão Seis Boca, Golziho Gti, Santana Executivo, Escortinho XR3 1.8, Saveirinho 1.8 e o Kadetão com painel Vaga-Lume (Kadet Gsi com Painel Digital), tudo “no chão” e “filmadão”
As cocócórotas só falavam que o Fabinho, o Binho, o Dinho, o Quinho, o Nandinho e outros inhos “Foram me buscar em casa, de (alguma caranga dessas citadas), pra gente í lá na Over (overnight)” Poderia ser na Subway, na Krypton, no Resumo da Ópera ou na Toco. Na verdade todos esses “inhos” não iam levar. Iam buscar os “cofrinhos”…
Puxa vida… Estava quase esquecendo: a chamada “Leva prreibói pro capeta”(na minha rua, costumávamos falar assim dela): a Yamaha RD 350cc. Essa moto, apesar de não ter muita cilindrada, era extremamente leve, carenagem aerodinâmica, desenho inspirada nas motos de 1000cc e posição esportiva de pilotagem. Essa moto, somado à imprudência dos prreeibóois, só poderia dar em uma coisa:
1º. Cococórotas atraídas pelo Prreeibóoi de “RD”.
2º. Cococórotas na garupa com a bunda arrebitada.
3º. Prreeibóoi e cococórota no chão, freqüentemente, da Avenida Anhaia Mello ou da Avenida Salim Farah Maluf, com os corpos dilacerados e moídos no asfalto, misturados à borracha dos pneus dos caminhões. Morreu muito prreeibóizinho com essa moto.

O que se ouvia? A-HÁ. Muito a-há, tanto que o recorde de público no Maracanã no Rock in Rio ll, foram desses caras. Ereasure, Information Society, Tecnotronic, Snap, C&C Music Factory e mais um monte de grupos que usavam batidas eletrônicas. Porém a maior excrescência musical desta época, era justamnte o que mais se tocava nas rádios. Estou falando do “New Kids On the Bloch”.
As meninas da minha sala tiravam nota dez em todas as disciplinas, colecionavam papéis de carta, deduravam os amiguinhos para a professora, quando esta saía da sala e no final do ano, no amigo secreto, escolhiam um LP do “New Kids on the Bloch”. No final de 1989, eu tirei uma menina que pediu o óbvio. Falei para as minhas irmãs comprarem, pois eu tinha vergonha. Elas se negaram. Comprei né… …Fazer o quê? Até hoje me lembro que o disco dos caras era mais caro que o álbum duplo do U2 “Hatle and Hum”, que só pelo projeto gráfico, era absurdamente superior que o disco inteiro, melhor, que o repertório inteiro da carreia dos bofes do “New Kids on the Bloch”. Quando eu disse para as minhas irmãs, o preço do disco dos NKB elas queriam morrer, pois além de serem fãs do U2, tinham essa bolacha. Bolacha recheada: era um respeitável álbum duplo.

E “os pano”? O que o “jovem oriundo da classe média paulistana” vestia? Hummm… esta é a melhor parte.
Tudo o que tinha a ver com “Surf Wear”: cores cítricas nas camisetas e bermudas que eram meio agarradinhas, salvo, as camisas e as calças “semi bag”, de preferência da Chevallier.
Quando o desgraçado aprontava seu guarda roupa para “curtir a night”(o termo “balada”, irá sofrer o mesmo tipo de julgamento que “curtir a night”, ou seja: risadas de como esse termo é ridículo. Uma bobagem pois não muda nada, é só uma “nomenclatura”, uma gíria. O elenco muda, mas os personagens são os mesmos, sempre), vestia a camiseta e a camisa no estilo “Surf Wear”, dentro da calça semi bag, calçava seu tênis “Redley” ou aquele sapato ordinário que custava o preço de cinco pares, mas só levava um por causa da etiquetinha minúscula da “Cannon”(Não importava a marca. O modelo do tal sapato era “Cannon”), independente do calçado, deveria ser usado sem meia. Relógio: catracado. Se o cara tinha grana, usava o “Aqualung” original da Citizen, que o cara fazia questão de tirar do pulso para mostrar o selinho tridimensional, comprovando a originalidade do produto. Carteira da Cairê, que o mané tirava da Mochila, também da Cairê, onde levava seu material escolar contendo um caderno com a capa “produzida” com recortes da Revista Fluir: um monte de imagens de caras surfando, mulherada de topless e logotipo de marcas de: “Surf Wear”, com aquela frase maldita: “Destrua as ondas, não a natureza”. Ou era: “Destrua as ondas, não as praias”? AAHHH!!! Sei lá.

E no dia-a-dia? Depois da escola? A “molecada” de camiseta e bermuda quase ao meio das cochas, tudo em cores cítricas, apertadinha (não preciso falar mais da porra do “estilo” não é?), o teninisinho “Redley” ou o sapato “Cannon” usado também sem meia.
E as Mina? Tudo na porra do estilo “Surf Wear”. Mas época a bermudinha e a calça (Jeans, a porcaria do Moleton e outros tecidos) eram atoladas até o “lordinho”, o útero da atrevida, ou seja, quem não tinha bunda, precisava arranjar uma.

As marcas de roupas mais “transadas”(essa palavra é tão nojenta que me deixa até arrepiado) eram: Franete, Sundek, Quicksilver, Billabong, OP, Cairê, Pró Maré, UWF, Open Sea, Sea Club e a pior de todas: a Hang Loose. Aquela mãozinha foi desenhada de tudo quanto é jeito: branco e preto, preto e vermelho, tracejado, pontilhado, degradée…

E a Rabiola? O Black? O corte de cabelo dos prreibói quanto dos mano era um só: curto. Poderia até ter uma variação, mas era tudo curto. Comprido, só traveco e bandido, maconheiro, drogado, enfim: só o que não prestava. Os belo das mina era comprido com franjinha, curtinho (era o melhor, pois quem possuía esse corte, geralmente eram meninas bonitas) ou senão aquele maldito cabelo chitão.

Foi uma época que a galera se encontrava na rua. As ruas vizinhas: ou eram dos “camarada” ou era dos “prreibóii”. A rivalidade entre as ruas eram por comportamento, pois todo mundo era fudido. Quem tinha comportamento de “pseudo-burguês”, apesar de não ter grana, chamávamos de “prreibói”, são caras que viviam de aparência e futilidades. Quem assumia a periferia sem frescura, chamávamos de “Mano”. A minha rua: a Umuarama, era dividia entre esses dois blocos, porém os prrreibóis, ficavam na entrada da rua, o que às vezes, gerava algum desconforto para ambos.
E eu nessa história, o que eu era? Nada, porém já demonstrava uma tendência forte de entrar na facção dos “mano”, onde o Habitat deles eram no “triângulo das bermudas” (Os botecos do Luizão, Messias e Dario), no topo da rua.

Um dia eu estava descendo a Umuarama para ir ao supermercado junto com os meus camaradas: Josué, André, Tilo e o Domingos. Foi num sábado de tarde nas férias do final do ano, o tempo estava fechando: prenúncio de chuva de verão. Os prreibóiis estavam jogando vôlei junto com as cocócórotas. O prreibóii mais folgado, entre todos os folgados era o “Marcelo Chapéu”. Esse cara deu uma cortada na bola, ninguém conseguiu defender resultado: a redondinha foi dar um passeio na rua. Ninguém para pegar a bola para eles, quando vem subindo… ele. A bola passa, e ele nem olha. Simplesmente a deixou rolar.

O tempo parou. Na profusão de cores cítricas das indumentárias de motivos surfistas, das carinhas de bochechas rosas e garotas de carnes voluptuosas, servindo de açougue para quem quisesse pagar, surge uma figura de cores opacas monocromáticas. Os passos severos, pesados, largos e extremamente rápidos. Ao invés do silêncio da sola de borracha dos frágeis tênis Redley e do sapato “Cannon”, um coturno original do exército; escorava, machucava o asfalto. A calça jeans de corte reto, extremamente surrada e rasgada como a jaqueta, também em jeans, que foi “transformada” em um colete, com as mangas literalmente arrancadas e um desenho do iron maiden, “The Trooper”, sem o logo da banda, costurado nas costas do colete. A camiseta com as cores da Bandeira da Inglaterra, uma corrente no pescoço com vários crucifixos pretos pendurados cada elo e um maior todo cromado, medindo pouco mais que 10cm. Este crucifixo estava pendurado ao contrário.
O que era mais sórdido é que essa “coisa” era japonês. Mas ao contrário da visão caricaturada dos japoneses nerd’s, pequenos, frágeis, subservientes, de sorriso fácil e débil, “aquilo” era a antítese desta caricatura: alto (para o biótipo dos japa) e musculoso de uma forma bizarra, não era como os prreibóis que faziam academia para as cocócórtas ficarem molhadinhas e receber elogios de outros prrreibóis. Dava a impressão de que lhe faltava pele e as veias iam explodir. Em suma, parecia que o cara era só nervo, como uma construção que foi embargada no meio da obra, ficando somente a estrutura, faltando todo o resto: hidráulica, elétrica, esquadrias, etc. Possuía uma feição indiferente a tudo. Era a própria reencarnação do mau, o Anticristo.
O cabelo, comprido, conforme o vento, misturava-se aos pequenos crucifixos pretos, dando uma impressão que era uma coisa só: Uma mancha preta para emoldurar a face do mau. A rua parou. Enquanto as pessoas estavam no absurdo do silêncio de suas almas, os latidos enfurecidos dos cachorros ecoavam pela Vila Prudente. Quando chegou perto da rede de vôlei, os preeibóis a levantaram, nem parou ou diminuiu a velocidade dos passos, pois tinha a certeza que a levantariam.
A molecada de 5 a 7 anos, entravam dentro de suas casas correndo, como se estivessem fugindo de um monstro. As “Gorete” (fofoqueiras) olhavam para ele com expressão de pavor e repulsa, intercalando as mãos no rosto e o sinal da cruz como se estivessem repelindo a visão do diabo. Quando ele estava no meio da rua, começou a chover. O tempo literalmente fechou. Acabou a tarde de sábado. O sol, risonho e debochado dos prreibóis,foi eclipsado pelas trevas. Quando ele sumiu ao dobrar a esquina, olhávamos entre nós para ver quem poderia explicar o que era aquilo. Foi aí que o Tilo disse:

“Esse é o Motomo”

Não sabíamos, mas acabávamos de ver pela primeira vez, a maior influência de nossa adolescência: “Motomo: o Flagelo de Deus”

3 Respostas to “MOTOMO O FLAGELO DE DEUS PARTE 1”

  1. Camila Says:

    pulllllllllllllllta merda!
    que medo do motomo!!!
    realmente não conhecia essa história!!!
    sua descrição foi perfeita! pude imaginá-lo perfeitamente!!!!
    continue a trilogia, por favor!
    beijos!!!

  2. Nidia Says:

    eeeeeeee
    “vale a pena ver de novo”!
    adoro reprises!

  3. fabrício Says:

    acho que esse é o melhor post de todos os tempos.

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